Disposable People

Quando eu era criança eu aprendi a respeitar os mais velhos, a ser educada, a tratar bem as pessoas, a não mentir, a sempre ajudar, mesmo quando não me fosse solicitado.

Aprendi que muitas pessoas passariam por minha vida e que eu deveria tratar bem a todas. Sempre fazer o bem sem olhar a quem.

Aprendi também que, algumas pessoas, raras e especiais, seriam dignas da minha total atenção e entrega. E que eu saberia reconhecer essas pessoas, bastando para isso prestar atenção nos detalhes. As reconheceria pela verdade estampada no olhar, pelo calor no abraço, pelo carinho no cuidado, pela luminosidade no sorriso… A essas pessoas, e somente à elas, eu deveria oferecer o meu melhor e com elas eu deveria sempre ser verdadeira, ajudando a tornar sua vida mais leve e seu fardo mais fácil de carregar.

Minha avó dizia que a vida é muito difícil, que nada vem fácil, que pra conquistar seus sonhos é preciso muito trabalho e que, por isso é tão necessário termos em nossa vida, pessoas que a alegrem, que tragam momentos de prazer, que nos ajudem a esquecer das obrigações. E que ser uma pessoa assim, para alguém, é a maior alegria que alguém poderia ter.

Sempre procurei aplicar essas lições em meus relacionamentos, fossem os impessoais, os pessoais ou os profissionais, guardadas as devidas proporções.

É fato que durante a vida sofremos várias decepções. Ajudamos pessoas que não mereciam nossa ajuda. Confiamos em pessoas que não mereciam nossa confiança. Cuidamos de pessoas que não mereciam nossos cuidados. Amamos pessoas que não mereciam nosso amor. De algumas dessas decepções, nós esquecemos, outras nos acompanham por toda a vida. Mas elas nos ajudam a crescer e nos ensinam coisas fundamentais. Inclusive nos ensinam também que, algumas regras, foram feitas para serem quebradas.

Mas o que tenho visto acontecer atualmente é um fenômeno que se espalha silenciosamente: pessoas tem se tornado absolutamente insensíveis. O outro é um ser descartável. O próximo não significa nada, não tem importância nenhuma. Ao menor sinal de descontentamento, ou quando a pessoa já serviu ao seu propósito, as pessoas simplesmente descartam a outra, de modo que essa lhe cause o menor aborrecimento possível, de preferência, sem ter que dar nenhuma satisfação. Os relacionamentos são superficiais, as relações, de conveniência.

Ai eu penso: como alguém como eu, esse ser estranho e diferente, sobrevive num mundo como esse? Muitas vezes é necessário se adaptar, se misturar com o ambiente e se camuflar. Mas até que ponto é possível se camuflar? Até que ponto aquilo que você é não fala mais alto do que o que você tenta ser? E os riscos envolvidos em retirar a máscara, em mostrar sua verdadeira face? E o olhar de reprovação das pessoas, as comparações e julgamentos?

Ainda assim, vez em quando, a gente resolve assumir o risco. Algo de verdadeiro no olhar de uma pessoa, algo de luminoso no sorriso, faz com que você se abra e derrube os tijolos da muralha.

Você passa a se importar, a cuidar, a fazer questão de demonstrar a importância, a fazer concessões e sacrifícios, ainda que não solicitados, em prol da alegria do outro. E faz isso de coração, porque sente prazer em fazê-lo. Porque, afinal, não existe alegria maior do que fazer diferença na vida de uma pessoa. Ajudá-la a manter sua saúde, física e mental, em dia. Ajudá-la a carregar seu fardo e tornar sua vida mais leve.

E, nesse caso, o que se pode esperar em troca? Pra mim, se pode esperar apenas que você não seja descartável na vida da outra pessoa. Que, no final, tudo o que você tentou ser seja levado em consideração. Que haja respeito pelo que você é. Que sua interferência tenha sido relevante de alguma maneira.

Não consigo entender como, para alguns, as pessoas, e seus sentimentos, não representem nada e promessas não tenham valor algum.

Consideração e respeito são valores que saíram de moda. E a culpa por eu conseguir enxergar isso é dos meus pais e dos meus avós, que, lá no passado, me deram educação e me ensinaram lições.

Continuamos em nosso caminho, sempre crédulos, sempre superando os obstáculos, as desilusões, confiando que, ao emanar tais energias para o universo, de algum modo, isso vai influenciar positivamente em nossos destinos.

Gostaria de ter certeza disso. Mas a única certeza que tenho é a de que, pra mim, as pessoas nunca serão descartáveis.

“Quanto menos um homem vale, menos valoriza os outros”. José Narosky

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