Casal Siamês

Todo mundo conhece uma história como a de Rodolfo e Marta. Eles se conheceram no trabalho, se apaixonaram e se casaram. E desde então passaram a fazer tudo juntos.

Continuaram trabalhando juntos. Almoçavam todos os dias juntos. Marta controlava a alimentação de Rodolfo. Não o deixava comer frituras e bobagens que pudessem vir a fazer mal à sua saúde.

Rodolfo, por sua vez, enchia Marta de atenção, carinho e mimos. Fazia companhia à ela no shopping durante as compras. Ia ao cabeleireiro e esperava pacientemente por horas entre revistas de fofoca até que ela ficasse pronta.

Faziam academia juntos, à noite. Marta fiscalizava cuidadosamente todos os exercícios que Rodolfo fazia, para que tudo corresse conforme tinha que ser. Ela se preocupava muito com a saúde dele, pois havia demorado muito para encontrar seu homem perfeito, não conseguia nem imaginar perdê-lo.

Ao final do dia, já em casa, assistiam juntos à TV. Sempre os mesmos programas. O telejornal, a novela, o programa de entrevistas.

De vez em quando saiam para jantar fora ou pegar um cinema. Permitiam-se algumas viagens, também. Sempre os dois. Só os dois.

Marta não gostava que Rodolfo saísse sozinho. Mesmo que fosse só para ir tomar um café com os amigos. Ela se sentia excluída, como se ela não fosse suficiente para fazê-lo feliz. Gostava de tê-lo sempre por perto, mesmo quando tinha vontade de estar sozinha. Não se permitia o egoísmo de ficar só. Preferia sacrificar sua individualidade a deixá-lo ficar longe.

Como conviviam o tempo todo, não tinham mais assunto. Foram parando de conversar. Já não riam mais. Já não havia todo aquele encanto na simples companhia do outro.

Rodolfo se sentia sufocado. Queria comer bobagens de vez em quando. Queria não ter que ir à academia todos os dias. Queria assistir ao futebol enquanto Marta fazia compras. Queria poder sair com os amigos enquanto ela estivesse no cabeleireiro. Mas, como não queria magoá-la, não fazia nada.

Rodolfo sentia falta de si mesmo. Rodolfo queria era sentir falta de Marta outra vez.

2 Comments to “Casal Siamês”

  1. Por isso que acredito que o amor tem que ser de duas pessoas inteiras e não de metades capengas. Aquela historinha de metade da laranja, tampa da panela, já não funciona mais nem em filme. Estar com alguém porque esta pessoa me completa, tampa os buracos que existem na minha alma e no meu coração, o amor romântico, talvez esteja fadado a deixar de existir. Está cada vez mais evidentes que aquelas pessoas que sabem viver bem sozinhas, são emocionalmente bem equilibradas e não dependem do outro para conquistar sua felicidade, são também aquelas mais bem sucedidas em relacionamentos a dois. Dependência de qualquer tipo arruína a relação.
    Leia o texto Sawabona/ Shikoba do Flávio Gikovate. É legal que comecemos a repensar nossa forma de amar!
    Abraços,
    Patty

  2. Me vi demais neste post. Em certa parte, um dos motivos do fim do meu casamento foi exatamente esta coisa de sentir falta de mim mesmo.
    Vocé escreve muito bem, Gi!

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