Decantamento

ImagePaixão é química. Aquele ardor no coração que vem da insegurança, da necessidade infinita de saber que o outro sente o mesmo, da necessidade de ser correspondida. E com o estabelecimento da relação tudo se acalma. Porém são esses momentos que ficam e preservá-los é o que fará com que a relação se renove.

Dois pontos cruciais se destacam nesta frase, “com o estabelecimento da relação tudo se acalma” e “preservá-los é o que fará com que a relação se renove”.

O que observamos corriqueiramente é que em relações longas há uma forte tendência das coisas irem amornando até que esfriam completamente. É o tradicional “virar irmão”. Aquela paixão louca e desenfreada do começo vai esfriando, esfriando até se tornar uma mesmice acomodada de dar pena.

Por que é tão difícil preservar a paixão e renovar o relacionamento?

Não é tão simples assim, mas não é tão complicado também. Com o passar do tempo, com a convivência constante, em especial nos casos em que o casal mora junto, vem a intimidade. E esta intimidade cresce a cada dia, fazendo com que a confiança entre os dois cresça, assim como a segurança em relação ao outro.

Aí você começa a se sentir mais tranqüila em expor suas fragilidades e seus momentos, digamos assim, menos glamourosos.

Sem o menor pudor você fica no meio da sala com a cabeça embrulhada em papel alumínio enquanto a tintura age, creme no rosto e com os dedos dos pés separados com algodão enquanto pinta as unhas.

Ele, sem a menor cerimônia, passa por você de camiseta velha e aquela cueca descosturada na lateral, te olha e pergunta, “amor, vou pegar bolacha, você quer”. Você responde com a tampa da acetona na boca “só uma”.

Nem você se importa com a cueca descosturada dele e nem ele com você parecendo um monstro do pântano.

E é justamente isso que gera a tal acomodação. Cada vez mais um conhece os segredos do outro, o mistério acaba e a segurança resulta em acomodação. Um sente que não precisa mais encantar e seduzir o outro. Ele já está ali mesmo.

E como ele está ali, você não precisa aproveitar cada segundo da presença dele, como nos tempos de namoro em que cada instante era precioso. Dá para esperar acabar o capítulo da novela, ler esses e-mails, lavar a loucinha que ficou, recolher a roupa do varal… Se bem que agora deu um sono… Amanhã eu fico mais com ele.

Aí ele está lá na internet, pegou um livro… parece tão compenetrado vendo esse filme… foi consertar o chuveiro… Ah… deixa pra amanhã…

E assim vai. A rotina, a acomodação, o excesso de intimidade vão minando o encanto do casamento até que os dois viram irmãos. Triste, mas real.

Manter a chama acesa é possível, mas não é fácil. Demanda predisposição, dedicação e planejamento, por mais contraditório que possa parecer planejar para recuperar a espontaneidade. É preciso criar novidades, bagunçar as rotinas, inventar mistérios e não se esquecer que vocês são homem e mulher.

O amor está lá, só que decantado no fundo do seu coraçãozinho. Para que ele volte a preencher sua totalidade, precisa ser chacoalhado.

*Colaboração Ricardo Flausino, autor do blog Crônicas do absurdo.

One Comment to “Decantamento”

  1. Precisa, sim, chacoalhar. E o melhor é se os dois tiverem o empenho em chacoalhar. Dá para melhorar o relacionamento apenas com um tentando. Mas é muito mais difícil. E, se esse um se cansar, a chance de mandar tudo para o espaço é enorme…

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