Sobre a necessidade de controle

”Há quem não veja a onda onde ela está
E nada contra o rio
Todas as formas de se controlar alguém
Só trazem um amor vazio”.

Em seu sentido denotativo, a palavra controle significa ter domínio total sobre algo ou alguém.

Ninguém gosta de se sentir controlado, certo? Mas ninguém gosta, tampouco, de perder totalmente o controle.

É curioso observar que as mesmas pessoas que freqüentemente reclamam do tédio e da rotina do dia a dia, quando tem a oportunidade de mudar, optam pelo óbvio e seguro. Tentam racionalizar tudo para não perder o controle. Dificilmente conseguirão optar por uma situação nova que estará além de seu poder de controle.

Tememos tudo o que não conseguimos controlar. Isso é fato. Por isso pessoas desistem de propostas de trabalho num país desconhecido, se afastam  prontamente de alguém quando se percebem apaixonadas, desistem de cursos/ atividades que não dominam totalmente etc. Sempre que surge uma situação em que o controle exercido é mínimo, ou nenhum, o medo surge e, muitas vezes, paralisa. É natural. Até que se torna patológico. Não se permitir viver espontaneamente hoje produz, amanhã, pessoas amargas e ressentidas com a vida.

Nos relacionamentos entre homens e mulheres não é diferente.

Pessoas muito inseguras, com dificuldades em interagir ou indivíduos com alguns tipos de transtornos de comportamento, sociopatias e psicopatias, regularmente optam por se relacionar com indivíduos a quem possam controlar facilmente.

Baixa auto estima, carência afetiva, insegurança, inferioridade intelectual, ingenuidade e boa fé, são algumas das características que tornam a pessoa uma vítima potencial . São utilizados mecanismos como chantagem emocional, sentimento de culpa e medo do abandono para mantê-las sob controle.

Freqüentemente, pessoas assim levam uma vida dupla. Na frente de seu/sua parceiro(a) fingem ser virtuosos, bons/ boas moços(as), se esforçam para agradar e demonstrar qualidades e virtudes forjadas cuidadosamente. Fica muito mais fácil persuadir o outro a acreditar e confiar. Tudo pela manutenção de sua aparência e reputação.

“Quando você ama uma mulher, quer que ela só pense bem de você. Naturalmente você esconde algumas coisas sobre si, coisas que poderiam mostrá-lo sob um ângulo desfavorável”. Josef Breuer

Já quando longe dos olhos de seus eleitos, mentem, omitem, traem, manipulam, magoam. Sem pensar duas vezes, sem remorso. Usam as pessoas em benefício próprio sem sombra de consciência. E, se ao se perceber lesada, a cobrar algo desse tipo de pessoa, suas garras, a agressividade, a intimidação, física ou intelectual, aparecem para tentar controlar essa situação também. Damage control.

E tem gente que faz isso sem perceber. Esses desvios de personalidade são tão inerentes e intrínsecos, que o indivíduo sequer se dá conta do mal que causa ao outro. Nunca se relacionam por muito tempo com pessoas que considerem iguais, equivalentes. Que sejam seguras, perspicazes, percebam suas manobras manipulativas e as contestem. Porque o risco de perder o controle da situação é muito alto. E  a possibilidade de serem desmascarados, iminente. Quem não pode bancar o blefe, não dá all in, náo é mesmo?

Em um relacionamento amoroso, em menor ou maior grau, sempre tem alguém que controla e outro que se deixa controlar. Ainda que esses papeis sejam constantemente invertidos. Porém, se anular em prol do outro gera frustração. E a conta no futuro será bem alta.

Para não se permitir ser envolvido por pessoas assim, é necessário manter os sentidos bem alertas para enxergar os sinais, para perceber quando se está promovendo mudanças e abrindo mão do que se é e do que se gosta por opção própria ou apenas para fazer as vontades do outro.

Como dizia Nietzsche, cada indivíduo nasceu para se tornar quem ele é. Personalidade forte e opiniões próprias são passos importantes para completar esse processo.

As pessoas vivem bradando que são livres para escolher o que quiserem, que podem fazer o que bem entendem. O livre arbítrio é considerado valioso.

Mas a verdade é que isso tudo é uma grande utopia, pois somos escravos de nossas decisões na medida em que sofremos as conseqüências de cada uma delas. A consciência disso faz com que os mais inseguros sempre escolham os caminhos, situações e pessoas que possam controlar com maior facilidade. Não vivem plenamente e nem permitem que os outros o façam.

A escolha é de cada um de nós. A vida passa rápido. Você vai caminhar para ser quem realmente é, ou prefere ser uma marionete de alguém?

Que graça tem se relacionar com alguém se você não puder ser você mesmo ao lado dela? Discordar, ter opiniões próprias, mostrar suas reais qualidades e defeitos. Se isso não for possível, prefiro ficar só. Jamais me submeteria a ninguém. Questão de personalidade. Lealdade para consigo. E ponto.

One Comment to “Sobre a necessidade de controle”

  1. Parabéns Gi! Adorei o texto.

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